Venda de flores: é possível organizar um circuito logístico local e rentável!
O comércio de flores de corte, como os demais, obedece a regras logísticas imutáveis: é preciso consolidar os fluxos para otimizar os custos. Foi assim que, para responder a esses desafios, os Países Baixos se tornaram, ao longo dos anos, o hub internacional do mercado. Mas, hoje, graças aos recursos digitais, outra organização é possível.
Você conhece Aalsmeer, município dos Países Baixos? Não? Mas o seu buquê de flores, que reina soberano na sala de estar, conhece. Há grandes chances, de fato, de ele vir de lá. É em Aalsmeer que fica o maior mercado de flores do mundo. Frequentemente chamado de Wall Street das flores, ali se encontra de tudo. Inclusive aquilo que pode parecer um contrassenso ecológico, em uma época em que todos defendem as virtudes de um consumo mais ecologicamente responsável.
Assim, hortênsias colhidas na Bretanha podem ser encaminhadas para Aalsmeer, para serem vendidas em leilão, antes de voltar à França para serem comercializadas por qualquer florista do país. Ou seja, sem alarde, uma viagem de 1.500 quilômetros ou mais. Uma heresia? Talvez... mas facilmente explicável. Antes de tudo, a produção local nem sempre é mais ecológica. Segundo um estudo de 2007 da Universidade inglesa de Cranfield, uma rosa do Quênia emite seis vezes menos CO2, incluindo a viagem de avião, do que uma rosa dos Países Baixos cultivada em uma estufa aquecida a gás natural. A consolidação dos fluxos também garante uma organização rigorosa dos custos logísticos: reunir tudo em uma mesma região maximiza as chances de abastecer posteriormente toda a Europa a custos menores, com caminhões carregados até a borda e rotas de entrega otimizadas.
E, nesse quesito, os Países Baixos souberam tornar-se indispensáveis. “Entre 80% e 85% das flores de corte vendidas na França são importadas, da Colômbia, do Equador ou ainda do Quênia, e a imensa maioria delas passa pelos Países Baixos que, há décadas, conseguiram se tornar a plataforma incontornável do mercado”, explica Hortense Harang, cofundadora da Fleurs d’ici, cuja missão é justamente propor uma alternativa a esse sistema.
Uma expertise logística neerlandesa histórica
Mas, antes, um pouco de história. Se os Países Baixos conquistaram tal posição, isso resulta de uma escolha industrial muito antiga – cultivam-se tulipas ali desde 1594 – que ganhou proporções colossais no pós-Segunda Guerra Mundial, graças a duas bênçãos particulares. Primeiro, a presença de pôlderes, com terras constantemente úmidas, calcárias e bem drenadas, propícias ao cultivo de flores. Depois, a descoberta de importantes jazidas de gás, que permitiram criar sistemas de cultivo em estufas aquecidas ultrarrendosos.
A otimização industrial e logística fez o restante: grandes produtores, e extremamente bem organizados para vender depois, os Países Baixos rapidamente agregaram às suas bases as produções de outras regiões. Assim, tornou-se possível encontrar ali qualquer flor, vinda de qualquer país. E a preços muito bons, pois consolidar os fluxos significa, naturalmente, otimizar os custos em razão das economias de escala geradas.
No entanto, como observa Rémy Vernet, diretor de Digital Supply Chain da SAP France, em um estudo recente publicado em março de 2023, uma “abordagem inovadora” é possível. Segundo ele, “enquanto antigamente a gestão da cadeia de suprimentos consistia sobretudo em reduzir custos, as empresas hoje enfrentam o desafio de se manter à frente da demanda dos consumidores, reduzindo ao mesmo tempo as emissões de carbono, a rotatividade de pessoal e mantendo os custos em um nível baixo.” Em outras palavras: as certezas de ontem, baseadas unicamente nos princípios da consolidação dos fluxos, são e serão cada vez menos válidas. Outros imperativos, mais sociais, passam agora a ser considerados.
E isso é oportuno: é possível adotá-los sem perder nada em rentabilidade. “É perfeitamente viável cultivar localmente, transportar localmente e consumir localmente, implementando ao mesmo tempo um sistema rentável. É nisso que trabalhamos com a Fleurs d’ici”, relata Hortense Harang. Por que milagre um caminhão cheio, que parte dos Países Baixos, pode ser concorrenciado por uma miríade de furgões operando localmente? “Isso pressupõe trabalhar com microfluxos e uma multiplicidade de atores diferentes. Em resumo, pressupõe passar de um modelo centralizado para um modelo distribuído, mas o poder do digital nos ajuda a tornar isso possível e conseguimos coordenar todas essas informações em tempo real, com plena eficiência”, esclarece ela.
Otimizar os transportes também no âmbito local
A lógica final permanece a mesma: “Saber consolidar os fluxos e otimizar sua cadeia logística, especialmente os transportes, cujos custos, para as flores de corte, representam em média 70% do preço final”, afirma Hortense Harang. Seja a partir das plataformas neerlandesas, seja localmente, na França, se os caminhões ou furgões circularem vazios, evidentemente nenhum sistema será viável. Mas, se essa questão dos transportes for resolvida, organizar os fluxos a partir de uma multiplicidade de ‘hubs’ locais, em vez de um único hub centralizado nos Países Baixos, é uma solução duradoura.
A Fleurs d’ici criou, assim, sua plataforma We Trade Local para interconectar os três elos da cadeia de valor: produtores locais, distribuidores locais e transportadores locais, por meio de transportes descarbonizados (isto é, veículos elétricos). “Para que o sistema seja rentável, precisamos de no mínimo cinco produtores em uma área que sempre limitamos a 160 quilômetros”, ressalta Hortense Harang. Um perímetro limitado que nos permite reduzir a pegada de carbono de nossos buquês em 30 vezes, continua Hortense Harang, que vê seu papel um pouco como o de “maestrina”. Mas uma maestrina ultraconectada, que usa todo o poder das IAs e dos dados para executar essa partitura local...
A ideia, além dessas interconexões entre profissionais, é, para otimizar os custos, dispensar qualquer noção de armazém. É esse pequeno raio de 160 km que permite prescindir dele, tornando possível ligar diretamente a montante, os produtores, à jusante, os floristas. Desde que se saiba gerenciar com precisão as rotas dos caminhões, elétricos, evidentemente, neste caso. Ter uma boa previsão de vendas – e a IA ajuda nisso, ao antecipar os comportamentos de compra dos clientes – é, nessas condições, um pré-requisito.
Educar o consumidor
Chegamos ao último dos grandes imperativos: o cliente final deve fazer sua parte. Muito claramente, ele deve aceitar a ideia de que rosas no Dia dos Namorados talvez não sejam uma boa ideia, por exemplo. “A rosa do Dia dos Namorados é um pouco como comer morangos ou tomates no inverno”, ressalta Hortense Harang, que insiste nas alternativas, igualmente bonitas de receber e agradáveis de oferecer: ranúnculos, anêmonas ou mimosas, que florescem na França nessa época. Mas a que preço? Hortense Harang garante que oferecer um buquê francês não custa mais caro e pode até custar de 20% a 30% menos do que flores importadas. “Tudo é uma questão de educação”, conclui ela. “O consumidor está evidentemente pronto para compreender essas questões, se soubermos explicá-las bem.” Enquanto isso, a iniciativa começa a dar frutos: “Embora houvesse mais de 30.000 horticultores na França em 1972, esse número havia caído para cerca de 3.500, mas voltou a aumentar em mais de 300 nos últimos quatro anos.” Toda semana, uma fazenda de flores abre as portas na França, conclui a fundadora da Fleurs d’ici.




