As barcaças fluviais: armazéns urbanos flutuantes?
As cidades foram construídas em torno dos rios. Para ter acesso à água, é claro, mas também para o comércio, o transporte, o deslocamento de pessoas... E, no entanto, essa função histórica dos rios parece ter se perdido com o passar do tempo. Diante dos problemas de saturação do tráfego e de poluição nos centros urbanos, o transporte fluvial tenta voltar a ocupar espaço com armazéns flutuantes e móveis, portos urbanos e pontões públicos. Entrevista com David Berthet, responsável pelo desenvolvimento e operações de Lyon da Fludis.
Como e por que a Fludis foi criada?
O fundador da Fludis, Gilles Manuelle, criou em 2001 uma empresa, La Petite Reine, especializada em entregas com bicicletas de carga. O problema enfrentado à época era que uma bicicleta tem um raio de ação máximo de apenas 3 quilômetros. Eram necessários, portanto, muitos locais de armazenamento bem distribuídos para atender toda uma cidade como Paris. Mas esses espaços são escassos. Ele então se debruçou sobre outra solução complementar: o transporte fluvial, que permite cobrir distâncias maiores, com as bicicletas de carga embarcadas. Assim, criou a Fludis em 2019. As mercadorias são transportadas previamente por caminhão, para fora da cidade. A embarcação é autônoma para o carregamento, pois é equipada com guindastes. A preparação dos pedidos é feita a bordo, assim como o carregamento das bicicletas. O sistema evita as múltiplas transferências de carga que complicam as entregas urbanas tradicionais. Hoje, seis embarcações estão em operação em Paris, uma em Lyon e outra está em construção. Cada uma delas tem entre 200 e 1 750 m² e permite processar entre 1 000 e 7 000 encomendas por dia, com maior facilidade para cumprir os prazos anunciados, já que o rio apresenta menos imprevistos de circulação do que as estradas.
No ano passado, o grupo Sogestran e a Ademe Investissement tornaram-se sócios minoritários, juntando-se à Banque des Territoires e ao Idec Groupe.
Quais obstáculos precisam ser superados para adotar um modo de transporte fluvial?
É verdade que contornamos o problema da escassez de terrenos ao instalar Espaços Móveis de Logística Urbana (ELUM), ou seja, armazéns flutuantes, mas por vezes nos deparamos com conflitos de uso nas margens. De fato, há alguns anos as metrópoles decidiram devolver vida aos seus rios e, entre cruzeiros, lazer aquático, áreas de banho e barcos adaptados como moradia, é indispensável manter margens dedicadas à logística ou com usos mistos em nossas cidades.
Para as empresas, o modelo econômico dessas soluções é obviamente uma questão central. Trabalhamos em modelos duradouros e adaptados a cada situação para que essas novas organizações proporcionem ganhos de produtividade às empresas.
Fala-se em um modo de transporte descarbonizado, mas barcos e barcaças também podem poluir… Quais inovações foram implementadas para reduzir sua pegada?
Nossas embarcações mais recentes contam com propulsão elétrica ou atendem a padrões equivalentes à norma Euro 6, ou seja, têm emissões nulas ou baixas para a navegação nas cidades. A combinação entre consolidação de cargas e descarbonização traz um valor agregado real para a logística urbana. A vela também poderia ser uma solução viável, mas para distâncias maiores.
O que seria necessário para que o rio voltasse a ser uma verdadeira ferramenta de transporte de mercadorias?
Foi apenas há 10 anos, com a conscientização sobre as mudanças climáticas e o desejo de descongestionar as cidades, que esse modo de transporte voltou a despertar o interesse das políticas públicas. Hoje, devemos trabalhar com todas as partes interessadas, públicas e privadas, para definir uma estratégia de longo prazo para desenvolver o uso de nossos rios, em particular nas cidades, pois se trata dos únicos eixos de transporte não saturados. Por exemplo, a intenção de eliminar as Zonas de Baixas Emissões (ZFE), quando muitos agentes investiram em novos veículos ou novas organizações, não é um bom sinal para as empresas.




